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O lugar do sintoma e da farmacoterapia no tratamento do sofrimento psíquico: uma perspectiva psicanalítica em diálogo com a psiquiatria contemporânea

Mateus Luiz Franz Troyack

Psicólogo Clínico | CRP 12/17479

A compreensão contemporânea do sofrimento psíquico tem sido amplamente influenciada pelo modelo biopsicossocial proposto por Engel (1977), segundo o qual fatores biológicos, psicológicos e sociais participam de forma integrada da constituição e do tratamento dos transtornos mentais. Apesar desse avanço conceitual, diversos autores apontam que, em determinados contextos assistenciais, sobretudo aqueles marcados por alta demanda e tempo reduzido de consulta, ainda persiste uma tendência à predominância de explicações biologicistas e de intervenções centradas na farmacoterapia (Frances, 2015; Gabbard, 2016; McWilliams, 2022). Tal cenário não representa uma característica inerente à psiquiatria, mas uma consequência das condições estruturais que frequentemente limitam a investigação clínica aprofundada.

Sob a perspectiva psicanalítica, o sintoma não é compreendido apenas como um fenômeno patológico a ser eliminado, mas como uma formação de compromisso que expressa conflitos inconscientes e modos particulares de funcionamento psíquico (Freud, 1926/2014). Em vez de constituir somente um sinal de doença, o sintoma também comunica algo da história do sujeito, de suas formas de defesa e de suas tentativas de adaptação frente ao sofrimento.

Autores contemporâneos da tradição psicodinâmica mantêm essa compreensão. Para McWilliams (2022), o diagnóstico clínico deve ir além da classificação de sintomas, buscando compreender a organização da personalidade e o significado subjetivo das manifestações clínicas. De forma semelhante, Gabbard (2016) ressalta que a compreensão psicodinâmica amplia o raciocínio diagnóstico ao considerar a singularidade da experiência do paciente, favorecendo intervenções que ultrapassam a simples remissão sintomática.

Nessa perspectiva, quando o sofrimento apresenta intensidade suportável e preserva a capacidade de reflexão do indivíduo, a psicoterapia pode favorecer a elaboração dos conflitos subjacentes ao sintoma e o desenvolvimento de novos recursos psíquicos para lidar com eles. Isso não significa defender a manutenção do sofrimento, mas reconhecer que sua compreensão pode representar uma importante oportunidade de transformação subjetiva.

Entretanto, essa posição não constitui uma crítica à farmacoterapia em si. Ao contrário, reconhece-se que existem condições clínicas nas quais a intervenção medicamentosa é indispensável e amplamente respaldada pela literatura científica, como episódios depressivos graves, transtornos psicóticos, transtorno bipolar e quadros marcados por intenso risco clínico ou comprometimento funcional. Nesses casos, a redução do sofrimento proporcionada pelos psicofármacos frequentemente cria condições para que o paciente possa beneficiar-se do processo psicoterápico (Gabbard, 2016).

A reflexão proposta dirige-se, sobretudo, aos casos em que a farmacoterapia passa a ocupar lugar central no tratamento de sofrimentos que poderiam ser abordados por um projeto terapêutico mais amplo. Na prática clínica, observa-se não raramente pacientes que permanecem durante muitos anos em uso contínuo de antidepressivos ou ansiolíticos sem reavaliações periódicas da necessidade de manutenção do medicamento e sem intervenções consistentes sobre fatores psicológicos, relacionais e comportamentais que contribuem para a persistência do quadro. Nesses casos, o medicamento corre o risco de aliviar a manifestação sintomática sem promover mudanças significativas nos processos que sustentam o sofrimento.

Frances (2015) alerta que parte do processo contemporâneo de medicalização decorre da tendência de transformar dificuldades humanas em categorias diagnósticas passíveis de tratamento farmacológico. Essa crítica, contudo, não implica negar a relevância da psiquiatria ou da psicofarmacologia, mas defender que ambas sejam inseridas em um cuidado verdadeiramente interdisciplinar, no qual a medicação seja compreendida como um recurso terapêutico e não como a única resposta possível ao sofrimento psíquico.

Sob essa ótica, a farmacoterapia tende a produzir melhores resultados quando integrada a um plano terapêutico que contemple psicoterapia, prática regular de atividade física, promoção da qualidade do sono, alimentação adequada, fortalecimento da rede de apoio e acompanhamento periódico para reavaliação da necessidade de manutenção, redução ou suspensão do tratamento medicamentoso. O objetivo deixa de ser apenas a remissão dos sintomas e passa a incluir o fortalecimento da autonomia, da capacidade reflexiva e da construção de recursos internos que permitam ao sujeito enfrentar futuras situações de sofrimento com maior liberdade.

Dessa forma, a proposta aqui apresentada não contrapõe psicoterapia e farmacoterapia, mas defende seu uso integrado e criterioso. Enquanto os psicofármacos podem reduzir o sofrimento e restabelecer condições mínimas de funcionamento, a psicoterapia permanece como espaço privilegiado para a elaboração da experiência subjetiva, permitindo que o sintoma deixe de ser apenas silenciado para também ser compreendido.

REFERÊNCIAS

Engel, G. L. (1977). A necessidade de um novo modelo médico: um desafio para a biomedicina. Science, 196(4286), 129–136.

Frances, A. (2015). Voltando ao normal: como o excesso de diagnósticos e a medicalização da vida estão transformando pessoas saudáveis em pacientes. Rio de Janeiro: Versal.

Freud, S. (2014). Inibição, sintoma e ansiedade. In: Obras Completas (Vol. 17). São Paulo: Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1926).

Gabbard, G. O. (2016). Psiquiatria Psicodinâmica na Prática Clínica. Porto Alegre: Artmed.

McWilliams, N. (2022). Diagnóstico Psicanalítico: compreendendo a estrutura da personalidade no processo clínico. 3. ed. Porto Alegre: Artmed.

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